XaD CAMOMILA

9 de outubro de 2010

Educação e Memória


por Anna Christina Bentes *

"Em 1998, o colunista Jânio de Freitas, publicou na Folha de São Paulo, o seguinte artigo, que reproduzo aqui para ver se essa informação circula mais na internet e é lida por pessoas de bom senso que estão se deixando levar por uma vontade de diferenciação social - simplesmente não admitem que o Lula foi melhor Presidente que FHC porque isto vai contra o senso comum que diz que quem sabe mais é sempre o mais estudado, o mais aquinhoado socialmente, o que vem de "boas" famílias, etc. Essas pessoas estão sendo induzidas a isso pela campanha eleitoral mais calhorda que já se viu no Brasil. Gostaria que elas pensassem um pouco mais antes de esbravejar argumentos econômicos falaciosos. Estou reproduzindo abaixo uma análise de como estava o Brasil de FHC quando ele era presidente, análise esta admitida pela própria mídia, pelas próprias elites.

Este texto de Jânio de Freitas é brevemente analisado por mim na sua dimensão textual no meu artigo Linguística Textual, do livro "Introdução à Linguística: domínios e fronteiras". Eu o fiz porque tinha a idéia de deixar registrado por meio da leitura e análise de um texto o que tinha sido para nós aquele momento histórico e porque queria (vã desejo meu!!) que nunca nos esquecesssemos dele. Vejamos o que disse Jânio de Freitas sobre FHC e sua "equipe econômica", em 1998.

"Quem são eles

Não mãos deles, 169 milhões de vidas, o destino de um país gigante e uma crise brutal, com risco até de congestões capazes de ferimentos profundos no regime constitucional e na tranquilidade dos brasileiros.

Tudo foi dado a eles: o sacrifício dos direitos, o sacrifício dos milhões de empregos, o sacrifício de incontáveis empresas brasileiras, o scarifício da legitimidade do Congresso, o sacrifício do patrimônio nacional, o sacrifício da Constituição. E eles quebraram o país.

Quem são eles? Um presidente abúlico, alheio a todas as realidades desprovidas de pompa e reverências e que só reconhece um ser humano, por acaso ele próprio; avesso a dministrar, por desconhecimento, agravado pela indecisão, e que se ocupa tanto de bater papo quanto não se ocupa de trabalhar.

Como complemento, um ministério apenas pró-forma, desuatorizado pela evidência de que não foi montado para ser competente, mas por negócio político.

E nele, uma equipe econômica dividida entre inseguros eternos, como Pedro Malan, e a audácia dos imaturos no saber e na mentalidade, Gustavo Franco e Francisco Lopes.

Em 36 horas, entre quarta e sexta-feira, o presidente e eseus orientadores econômicos submeteram o Brasil a três sistemas cambiais. O dos últimos anos, o da repentina desvalorização do real e o recomendado na noite de quinta-feira pelo governo americano e o FMI (como relatou o New York Times). Ou seja, desvalorizando ainda mais o real.

Não é necessário, portanto, considerar o que eles fizeram em quatro anos para saber do que são capazes contra a perigosa crise. Bastam as 36 hosras de ontusidade e de leviandade, com o presidente insisitindo em sair de férias a meio do tubilhão que angustiava o país. (...) (Jânio de Freitas, Folha de São Paulo, 17/02/98)."

Para os que não viveram isto, que conheçam a realidade do passado pela força das palavras...

Para os que viveram isso, que reconheçam que isso aconteceu. Apenas reconheçam. E não fiquem inventando uma realidade que não exisitiu. Se quiserem, mesmo depois de terem passado por essa experiência, votar naquele que não se deve pronunciar o nome, votem, mas por uma escolha que tem como base uma certa embotação da inteligência e um grande recalque da própria experiência." (do BLOG DA AUTORA)


* Professora do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP; Doutora em Linguística pela UNICAMP; Pós-doutorado no Departamento de Antropologia da Universidade da California, Berkeley.

3 comentários :

Nilton Cezar disse...

Ivana, boa tarde.

Bem, após ter comentado sobre essa postagem: A desqualificação do voto do pobre, deixei registrado minha opinião e fiz questão de citar o meu candidato (a) por entender que sou livre e não devo satisfação a ninguém. O que me deixa triste é saber que pessoas que se julgam intelectuais não entendem ou não aprenderam a respeitar o espaço dos outros. Sintetizando o que quero dizer, entendo que quando fazem questão de frisar muito intectualismo é que, na verdade, não conseguem assumir que são preconceituosas. E disso, estou farto! Minha origem não me dá o direito de ser preconceituoso (se é que alguém tem esse direito!). Se tivesse esse direito, não o faria. Esse papel, deixo para os “tolos!” Que fiquem e vivam da maneira que acharem melhor. A verdade é que um nordestino, em seu governo, criou nada mais nada menos que 12 universidades federais. O intelectual, professor venerado FHC, não criou nenhuma.

Ivana, um abraço.

Lipe disse...

Política não é isso. Isso é politicagem.

Infelizmente, enquanto existir este tipo de argumento estar-se-á caminhando para uma sociedade chavista.

Acreditar que isso é democracia, é lamentável.

Anna Christina Bentes disse...

Caro Lipe:

Tenho lido muito textos jornalísticos na internet. Nunca li tantos comentários sobre as matérias. E estou completamente convencida de que a única saída para o Brasil é radicalizar na educação. Acabei de ver no yahoo que uma das propostas da Marina (não sei se são propostas do PV) é a de que sejam destinados 7% do PIB para investimentos em educação.

Taí uma coisa boa. Vi muitos textos curtos escritos pelas pessoas e muitos deles exibem uma característica comum: uma argumentação baseada no senso comum, no preconceito e em chavões e clichês.

Os comentários deveriam procurar estar, na medida do possível, à altura do texto comentado, dialogando com ele, mas não é o que acontece. A produção textual na internet (principalmente no que se refere a comentários) se caracteriza por não ser um diálogo com o texto que está sendo lido, um texto que foi pensado e organizado para apresentar argumentos em uma certa direção.

O que parece importar para muitos leitores não é considerar (isto não significa aceitar, significa levar em consideração, parar para refletir sobre) esses argumentos, mas simplesmente desqualificá-los, sem outros argumentos mais diretamente relacionados com aquilo que foi apresentado.

Foi exatamente isto que você fez. Sugiro que leia o restante do meu texto no meu blog. Isso tem também a ver com saber o que é ou não democracia, que pressupõe saber argumentar e discutir sem ser "no grito".

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