XaD CAMOMILA

15 de julho de 2011

"ô mãe, mexe com justiça não, tá bom assim"

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Jakeline

Estava na cozinha tagarelando sem descanso, escutei do portão. O advogado na certa enganava ela. Tinha acabado de pagar a última prestação dos quatro salários que ele cobrou pra cuidar de provar que o pai do menino dela era o filho do dono da “Doces e Balas Queridinha”. Sabe?, ela disse, eu sei que ele é o pai, tou careca de saber, mas na lei é diferente, não é? Precisa de exame de laboratório, exame de deeneal. Sei não, dona Célia, eu tou achando este advogado meu meio esquisito, parece que ele ta de tramóia com o advogado deles. Me disseram que advogado ganha dos dois lados. Será? Pior que já paguei ele. A senhora precisava ver quando ele lá, o pai do menino, veio – o juiz intimou ele –, eu quase morri de vergonha. Minha casa era uma bagunça só, o quintal muito sujo de folha seca e eu tinha acabado de chegar do posto, por causa daquelas crises que a senhora conhece, uma feiúra só, e aquele carrão na minha porta. Mas tem uma coisa, me tratou otimamente, passou a mão na cabeça do menino, perguntou o nome, do que ele gostava. Oh! falou, igual eu, também adoro rodeio, mexida com cavalo. O menino estourava, porque afinal, com treze anos, era a primeira vez que punha os olhos no pai. Só teve uma coisa chata, veio com o irmão dele, advogado também. Preferia tivesse vindo sozinho. Era mais bacana, eu acho. Outra coisa chata foi que, quando a visita acabou – mas tudo muito educado, nem parecia aquele de quando me fez o filho –, pediu licença, levantou a ponta da toalha da mesa, ô vergonha, minha casa naquela bagunça, preencheu um cheque pro menino. Essa hora eu tive raiva. Cheque! Que cheque!? Agora eu tou querendo é outra coisa, mas criança não entende nada, não é? O menino, dessorando de gosto, o pai preenchendo o cheque com uma mão e com a outra alisando a cabeça dele. Aceitei, porque educação eu tenho e não ia criar caso com uma bobagem dessas. Entrou no carro e foi embora prometendo que tudo seria melhor resolvido depois do deeneal. Me disse, educadíssimo também, que o advogado irmão dele trabalha pro laboratório onde vai ser feito o exame de apuração e, se ele for o pai mesmo... Aí fez uma pausa e tomou dois goles do café emendando: olha aqui, dona Célia, seja lá o que der no resultado, cumpri minha obrigação de contar pro meu filho quem é o pai dele. Que é o pai eu tenho certeza. Primeiro, porque fui eu quem fez a besteira, segundo, por causa das bochechas, igualzinho nos dois e, terceiro – só lembrei quando o danado tinha ido embora –, ele preencheu o cheque com a mão esquerda. É canhoto ele que nem o menino! Animou-se de novo a outro gole de café e levantou-se: Não quero nada dele, e, se for só metade do salário que o juiz obrigar, eu dispenso. Criei o filho sozinha, não preciso de esmola. Só quero reconhecimento, só isso. O menino ficou tão encantado que pediu: ô mãe, mexe com justiça não, tá bom assim. Entrou no carrão do pai e perdeu a fala. Coitadinho, qualquer carinho e já ta agradado. Comigo é diferente. Tudo bem que ele foi muito educado, chegou a ser fino, mas justiça é justiça, a senhora não acha, dona Célia? Achei e acho, mesmo porque, finura sem justiça é verniz vagabundo, Jakeline, sai com a primeira chuva. Ela riu, e, tenho certeza, vai usar a sentença nas fuças do juiz.
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Adélia Prado. Filandras. Editora Record, 2002  

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