XaD CAMOMILA

4 de março de 2009

Você consegue meditar?


por José Renato Nalini

A vida contemporânea impõe um ritmo que nem todos conseguem acompanhar. Velocidade é o signo desta era. Tudo é para "ontem". Urgência é palavra das mais usadas. Pressa, rapidez, eficiência. A sociedade exige muito de todos e todos acostumam-se a se auto-exigir com idêntica intensidade.


Por isso é que parece difícil encontrar um momento para a reflexão. Quem é que continua a conversar consigo mesmo? A se auto-indagar sobre os rumos de sua vida, a avaliar o que tem feito de sua existência? A constatar que ela é breve. Cada vez mais efêmera. Frágil e sujeita a uma série crescente de vicissitudes?


A requisição da vida moderna não contribui para a capacidade de meditação. Há tempo para tudo, menos para si mesmo. Cuida-se do superficial, negligencia-se com o fundamental. O fundamental é estar bem consigo próprio.


Mesmo assim, encontra-se um e outro sintoma de que alguns conseguem driblar o moto contínuo. E aparentemente perpétuo, ao menos enquanto dure a experiência existencial de cada um.


No Bowery, bairro ao sul de Manhattan, em NY, todas as semanas alguns punks se reúnem, sentam-se no chão, fecham os olhos e respiram profundamente. Chamada Dharma Punx, a reunião integra uma rede nacional de meditação budista. Uma das aulas é sobre como perdoar pessoas impossíveis de serem perdoadas. O líder, chamado Josh Korda, ajoelha-se à frente do grupo. Não considera antagônico o movimento punk, geralmente ligado à agressividade, e o budismo estimulador do perdão. Os dois processos se enraízam na insatisfação com o modo como as coisas são, o desejo de viver no presente e uma sede de paz mental.


Korda tem 48 anos, é tatuado dos dedos ao maxilar, começou a liderar as reuniões do Dharma Punx há três anos. Os participantes têm de 20 a 30 e poucos anos. O líder faz referência a suas bandas favoritas, como a Suicidal Tendencies ou os Cro-Mags, grupos considerados "hard-core". Os freqüentadores do Dharma Punx gostam dos encontros porque ali não há pregação nem proselitismo, cantos ou menções a dogmas.


Alguns dizem não suportar aulas de meditação em que se cobra para entrar, outros não gostam de velas. As sessões não têm drama, cada um dá o que quiser, se quiser, para a continuidade das reuniões. O Dharma Punx começou com Levine, de 37 anos, cujo livro, publicado em 2003, também se chama Dharma Punx. Ele conta a sua recuperação do vício da heroína, crack e álcool, graças à meditação budista. Levine começou a meditar quando esteve em um centro de detenção juvenil na Califórnia, por haver roubado para sustentar o vício. Situação comum a tantos viciados em todo o mundo.


Para o ex-viciado, meditar foi uma libertação. Embora na cadeia, refletir era melhor do que o medo do futuro ou manter as correntes que o escravizavam ao passado. Os encontros significam, para muitos dos que ali encontram conforto, uma fuga da competitividade crônica de Nova Iorque. Uma cabeleireira ficou intrigada com a mensagem de Korda de que "não há uma quantidade finita de felicidade no mundo". Ou seja, a felicidade é uma conquista individual, que pode ser desenvolvida de maneira livre e autônoma. O fato de alguém se sentir melhor, não significa que esse acréscimo foi subtraído de outrem.


Mensagem que serve para a juventude em todo o mundo e que pode ser experimentada nos ambientes os mais distintos. Neste planeta, em que a droga, embora assim chamada, consegue mais e mais adeptos, leva adultos ao consumo irresponsável, é causa de mortes, violência e tantas atrocidades, qualquer alternativa é preferível ao vício. Ainda que pouco ortodoxa.


Os responsáveis pela recuperação dos viciados e os preocupados com o desatino da juventude precisam dispor de vários instrumentos para desviá-los desta senda. Evidente que o esporte, as artes, a cultura, o interesse pelo ambiente, sejam o melhor caminho. Mas há grupos que não se interessam por qualquer deles. Estes não podem ser abandonados. Precisam receber algo consentâneo com suas expectativas.


Meditação budista, meditação zen, refúgios naturalistas, movimentos quais a "Toca de Assis" e outros, tudo deve ser considerado. Afinal, a exuberância da natureza humana está imune a padronizações. A homogeneidade é característica de formigueiros ou colméias, não do gregarismo pessoal.

Fonte: http://renatonalini.zip.net/

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