XaD CAMOMILA

21 de agosto de 2010

"A Metamorfose"

"Kafka + Silent movie", Marc Paeps, 2008

por Renata Manzini *

"Acabei de ler A Metamorfose. Grande prato para um magistrado. Estamos acostumados a ler enormes calhamaços com longos trechos inúteis e a decidir rapidamente após a leitura. Este livro de Kafka é um exercício do inverso. Breve, sem passagens inúteis, sem inversões de texto, linha do tempo contínua. Dilacera a alma, porém, a tentativa de entendê-lo. Não que seja difícil; mas abre tantas possibilidades de interpretação que exige reflexão, reflexão, reflexão.

Não concluí nada. Dei-me ao prazer de não formular nenhuma sentença, já que a lei a isso não me obriga no caso da literatura. É óbvio que eu poderia ter lido O Processo, para me manter na pauta, mas isso eu fiz há muitos anos, e não havia tanto estupor. Talvez seja a idade, o momento, ou de verdade A Metamorfose permita um número maior de divagações. Não sei. Posso apenas dizer que recomendo.

Espera o leitor um Gregor com a maçã enfiada entre as asas das costas, o humano que se transformou em barata e cai no esquecimento dos seus. Ouve, entende, sente, mas já não pode ser compreendido e, tanto pela forma repugnante quanto pela impossibilidade de se comunicar, deixa de ser um membro daquela família humana.

Não se olvida que Kafka contestava a burocracia, que a família de Gregor passa por uma metamorfose do espírito, que a diferença da aparência pode levar a ignorar as necessidades do outro (como a família passou a ignorar as de Gregor). Contudo, o isolamento em que caiu a barata, quando ninguém mais podia entender aquilo que dizia, provoca um dó ligeiro e me fez meditar sobre a importância de estar em sintonia com o mundo.

Grande prato para um magistrado. "

* Juíza de Direito em Campinas - SP

[escrito para o blog]]

2 comentários :

Michele disse...

Olá querida. Adorei teu Blog e adorei ver o Amantes do Direito na lista.

Que bacana a exposição aqui.

Bjk

Mih

kakau25 disse...

Oi, Ivana. Já vim aqui outras vezes e vou voltar mais. Parabéns! Que alívio! O texto mostra que os juízes também podem ser humanos... Existem juízes que trabalham para fazer justiça, inclusive, julgando contra os interesses do sistema governante e enquadrando os poderosos nos termos da lei. Porém, juízes assim são minoria. A maioria dos magistrados são medíocres (reis da decoreba e da repetição de informação), e trabalham para proteger os mais fortes, contra os mais fracos, a minoria poderosa, contra os interesses da coletividade. Parabéns para a MM. Renata Manzini (baixei o trabalho sobre conciliação também). Um forte abraço!!

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