XaD CAMOMILA

22 de julho de 2010

Por que eu gosto da cozinha?


por Renata Manzini (Juíza de Direito em Campinas)


"Os juízes não pensam só em direito, é claro.

Juiz é gente.

Olhando sem preconceito, vão encontrar juiz interessante e juiz enfadonho, juiz burocrata e juiz comprometido, juiz solteiro, casado, amigado, divorciado. Assim como tanta gente.

Antes se via pouca juíza mulher. Agora, até que somos algumas.

Olho bem e vejo pouco juiz negro, não conheço nenhum juiz cadeirante ou cego, mas temos todos a esperança de uma sociedade igualitária.

Isto não quer dizer que somos todos iguais. Pelo contrário, somos diferentes, e esta é a delícia do ser humano. Conviver na diferença e conciliar os interesses dos desiguais é parte da nossa missão.

Eu, por exemplo, gosto de cozinha.

Não sou gourmet não, nem tenho aquele chapeuzinho de chef. Às vezes lembro de colocar o avental. Bato a barriga no fogão diariamente.

Isto bem que poderia ser sinal de submissão aos conceitos machistas, mas acho que isso não se aplica aqui. Gosto mesmo da cozinha, da alquimia dos cheiros e gostos, das texturas.

Gostava da cozinha muito antes de ela tornar-se vedete de mostra de decoração. Gosto de cozinha de segunda a sexta feira, sem ninguém assistindo o que faço.

Meus pratos são mais fartos que bonitos, mais gostosos do que exóticos.

Somos em parte aquilo que comemos e através da boa comida – rica do amor de quem a preparou – estimulamos a cultura, a saúde, a convivência à mesa. Não gosto de delegar a alimentação de minha família, assim como não gostaria de contratar uma ama de leite para meus bebês.

Assim, embora eu também me aventure e experimente, a minha cozinha não é “cozinha de autor”, não é artística, não é gastronomia. É cozinha mesmo. Variada, mas diária.

Expresso com o ato de cozinhar meu amor por aqueles que vão estar à mesa, amor até para aqueles que me odiaram, mas que aceitaram a comida vinda das minhas mãos. Quem disse que não podemos amar nossos inimigos? Nem todo mundo concorda com a gente, não é verdade?

Cozinhar é ótimo para juízes: eu recomendaria. Mexemos com papel, com conflitos, com soluções difíceis e tempos longos. Na cozinha – se bem que a minha seja repleta de livros – as coisas são concretas, se transformam sob nossos olhos, agradam a muitos e, enfim, é possível relaxar.

Olhem bem: eu também adoro papel, processo e audiência. ADORO. Normalmente, quando estou no Fórum, e com exceção de um bolinho que eu traga pronto para acompanhar o XAD CAMOMILA, nem lembro da cozinha.

Mas, às vezes...

Pois é, às vezes sinto uma desolação e tenho vontade de voltar correndo pra cozinha.

Lá eu mantenho sempre uma lista de ingredientes básicos (farinha, fermento, açúcar, sal, etc.) e alguns ingredientes estranhos (cardamomo, zimbro, porcini). Verifico que a torneira, o fogão, a batedeira estejam funcionando.

E vou lá, mãos à obra, dar conta do recado, para satisfazer os comensais.

Infelizmente, nos últimos tempos, notei a falta dos ingredientes exóticos da Justiça e chegou a hora em que os ingredientes básicos escasseiam. Todos nós, que sempre gostamos de colocar as mãos na massa, estamos perplexos. Olhamos uns nos olhos dos outros e vemos que em breve não haverá pão para o povo.

Espero que provimentos cheguem antes que a antropofagia tenha início!"



[[Esse texto, na verdade, dialoga com o post "Receita Judicial", publicado há pouco tempo. Nele, brinco com a frase "os juízes não pensam só em direito", faço umas firulas e, depois, apresento uma receita de bolo dessa mesma juíza (veja aqui). Gosto do jeito que ela escreve, do seu estilo de texto e, por isso, criei uma seção especial no blog, chamada "Cabeça de Juíza", pra arquivar os textos dela. Já instiguei. Agora, é esperar pra ver...]]]

Um comentário :

Dav disse...

Ahá!
Sábias palavras doutora!
O bolo já foi(mas ainda não é aquele que eu acho que você merece), agora... cade a minha focaccia? =D
Parabéns!
Sucesso!

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